Brasil: O impacto do Ibase na construção da “sociedade de informação”

200px-carlosafonsoportrait.JPG Carlos Afonso outubro, 1998

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Carlos A. Afonso é co-fundador do Ibase e idealizador do projeto AlterNex. Atualmente, é diretor de planejamento da Rede de Informações para o Terceiro Setor (Rits).
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(maio-1999)A história do envolvimento do Ibase com as tecnologias computadorizadas de comunicação e informação (TCCIs) é fascinante pelo que tem de impacto e curiosa pelo seu desfecho.

É uma história intimamente ligada ao próprio desenvolvimento da Internet no país, em que o Ibase teve uma presença pioneira, contribuindo para formar uma política nacional neste campo – uma história que começa com a própria fundação do Ibase, no final de 1980, quando um dos fundadores trouxe do Canadá um microcomputador em sua volta do exílio, considerado tecnologia “alienígena” e “inadequada” por alguns dirigentes de entidades civis daquela época em que o país começava a emergir do escuro da ditadura militar.

Já em 1984 o Ibase participava da implantação de uma rede mundial de correio eletrônico de entidades civis – a iniciativa Interdoc, que envolvia organizações de todos os continentes. Em 1985 experimentava com os primeiros “quadros de avisos eletrônicos” (os chamados “bulletin board systems” ou BBSs, precursores da Internet). Era a realização de um esforço de concretizar com ferramentas de ponta um dos componentes centrais da missão original do Ibase: democratizar a informação para democratizar a sociedade.

Essa linha de trabalho se completava com o desenvolvimento de um projeto audiovisual também pioneiro, que deu origem a uma das melhores equipes de produção de vídeo alternativo do país – responsável, entre outras iniciativas, pela produção dos vídeos inovadores e impactantes que ajudavam a propagar, a partir do final de 1993, a Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida (também idealizada e animada pelo Ibase) por todo o país. Pela primeira vez, anúncios e vídeos documentais produzidos por uma ONG passavam no horário nobre de todas as redes de TV do país (e são vistos até hoje nos canais educativos), contribuindo decisivamente para internalizar uma consciência nacional da solidariedade contra a miséria.

Até 1994, como em muitos outros países, a Internet no Brasil estava restrita (com uma exceção) a iniciativas acadêmicas que começaram no final da década de 80 e se desenvolveram sob a coordenação de um consórcio nacional financiado pelo governo federal – a Rede Nacional de Pesquisa (RNP) – em um processo similar ao programa NSFNet da National Science Foundation dos EUA.

A exceção era o projeto de redes do Ibase. Em 18 de julho de 1989, o Ibase inaugurava o AlterNex, um serviço de intercâmbio de informações por e-mail e por conferências eletrônicas que já funcionava experimentalmente desde 1987. A transferência internacional de mensagens foi estabelecida graças a uma parceria entre o Ibase e o Institute for Global Communications (IGC), uma ONG em San Francisco dedicada a democratizar o acesso às TCCIs e que opera o PeaceNet, ConflictNet, EcoNet and outras redes da sociedade civil. Duas vezes por dia, o IGC fazia uma chamada telefônica via DDI ao AlterNex para a troca de mensagens. Com isso, os usuários do AlterNex passavam a poder trocar mensagens com qualquer outro usuário da Internet, já que o IGC era nos EUA uma das primeiras ONGs a ter uma conexão permanente à Internet (através da Universidade de Stanford).

O Ibase e o IGC foram os idealizadores da Associação para o Progresso das Comunicações (APC), consórcio internacional de ONGs que procuram potencializar o uso das TCCIs junto às entidades civis. Formalizada em maio de 1990, a APC hoje tem 25 membros que servem mais de 40 mil entidades em todo o mundo com serviços Internet, projetos de capacitação, projetos de disseminação de informação e outros. A APC é a primeira entidade internacional em seu campo a ser aceita como membro do Conselho Econômico e Social da ONU (Ecosoc).

Até 1992, o AlterNex oferecia somente conectividade por email. No final de 1990, a pedido de várias organizações ambientalistas, o Ibase propôs ao secretariado geral da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED, Rio de Janeiro, 1992) a implementação de um projeto Internet que viabilizasse a participação mais efetiva de entidades e indivíduos, mesmo que não pudessem estar presentes ao evento. Aceito o projeto pela UNCED, foi realizado com o apoio do PNUD, da RNP e das entidades participantes da APC. O sucesso do projeto garantiu ao AlterNex a primeira conexão direta do país à Internet fora da comunidade acadêmica – foi assim o primeiro provedor de acesso Internet brasileiro. Para centenas de ONGs e indivíduos no Brasil, isso significou o privilégio do acesso a toda a gama de serviços Internet ao menor custo possível. A partir do projeto da UNCED, a APC realizou iniciativas similares em outras conferências da ONU (Viena, 1993; Cairo, 1994; Copenhague, 1995; Pequim, 1995), o que a qualificou como membro do Ecosoc.

O projeto AlterNex também serviu de “berço” para a quase totalidade dos provedores de serviços Internet que surgiram entre 1994 e 1995 no país – que passaram de usuários dos serviços a provedores. Em 1994, o AlterNex operava o primeiro servidor WWW do país fora da comunidade acadêmica, enquanto o Ibase propunha como base da política Internet brasileira um caminho que garantisse a capilarização dos serviços e a garantia que serviços de valor agregado estivessem fora do alcance do monopólio estatal de comunicações. Esta proposta foi a que prevaleceu, com a decisão do Ministério da Ciência e Tecnologia de apoiar o desenvolvimento de uma grande espinha dorsal Internet brasileira de uso geral. Nascia em seguida o Comitê Gestor da Internet Brasil, e o Ibase foi convidado como membro-fundador e representante dos provedores de serviços.

O resultado da nova política foi uma explosão de serviços, com o nascimento de centenas de provedores e um crescimento intenso do número de usuários. O AlterNex deixava de ser único e em breve precisaria reformular o foco de seu trabalho, na direção dos novos desafios, envolvendo em particular iniciativas para contribuir para o acesso universal às TCCIs, capacitação, serviços inovadores de disseminação de informação, etc.

No entanto, em paralelo, uma crise financeira da instituição, que já se apresentava em 1994 mas que começou a impor grandes dificuldades a partir de 1995, teve como consequência cortes radicais nas principais linhas de trabalho do Ibase na área de comunicação. Em 1996, o AlterNex foi convertido a uma empresa, finalmente vendida pelo Ibase em 1997, enquanto a equipe de vídeo era desativada e o Ibase deixava de ser membro da APC. O Ibase adotava uma estratégia, em função da crise financeira, de abandonar os ramos de serviços e focar no trabalho de produção intelectual estratégica na luta contra a exclusão. O vácuo aberto por essa mudança no campo da Internet foi em seguida assumido pela proposta da Rede de Informações para o Terceiro Setor (Rits).

Desse trabalho excepcional, único na América Latina para uma ONG, ficou a influência marcante e a experiência única, que ajudaram a definir políticas nacionais para a sociedade de informação que até hoje influem nessas estratégias.

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